Antiga Cadeia Pública de Manaus aguarda restauração e sofre com abandono, vandalismo e insegurança
18/08/2026
(Foto: Reprodução) Antiga cadeia pública de Manaus está desativada há quase dez anos, e sem manutenção
Mais de um século de história, mas pouco cuidado. A antiga Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, no Centro de Manaus, sofre atualmente com a ação do tempo, falta de manutenção, vandalismo e descarte irregular de lixo. A estrutura, que já abrigou presos por décadas, aguarda um projeto de restauração.
Telhados, paredes e áreas do terreno apresentam sinais de degradação. Dentro do imóvel, a vegetação avançou sobre espaços que, no passado, eram ocupados por detentos. Portas, madeiras e grades também foram furtadas, segundo moradores da região.
“Os moradores de rua, são muitos, já entraram no local, saquearam portas, madeiras boas”, relatou a aposentada Fran Muniz.
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Mais de 100 anos de história
A antiga Casa de Detenção de Manaus começou a receber presos em 1907, em um período em que o ciclo da borracha já apresentava sinais de decadência.
Segundo o historiador Cleomar Lima, a construção foi inspirada no modelo de uma penitenciária da Pensilvânia.
Em 1988, o prédio foi tombado como monumento histórico do Amazonas. O tombamento passou a garantir proteção ao imóvel como patrimônio cultural.
Quase três décadas depois, em 2016, a unidade foi desativada após uma recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
No ano seguinte, em 2017, a cadeia voltou a funcionar de forma emergencial após o massacre ocorrido no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). A unidade recebeu 284 detentos como tentativa de evitar novos conflitos.
A medida, no entanto, durou pouco. Uma rebelião ocorreu na antiga cadeia, deixando seis detentos feridos e quatro mortos. Nos dias seguintes, os presos que ainda estavam no local foram transferidos para outra unidade prisional. Desde então, as portas da cadeia foram definitivamente fechadas.
Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa deve passar por revitalização, em Manaus.
Catiane Moura/Rede Amazônica
Promessas de segurança e restauração
Em 2023, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas informou que o prédio passaria a contar com segurança particular 24 horas e limpeza a cada dois meses.
Na época, também estava previsto um levantamento para dar início aos trabalhos de restauração. A proposta era transformar o antigo prédio prisional em um centro cultural.
Para o conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas (OAB-AM), Celso Valério, a falta de medidas diante das condições do imóvel pode representar omissão do poder público.
“Se prometeu no passado fazer alguma coisa e não cumpriu, caracteriza mais um agravante, o de omissão em relação a esse prédio”, afirmou.
O historiador Cleomar Lima também critica a situação atual do patrimônio.
“Se essa entrevista aqui fosse lá dentro, correríamos o risco de ter o teto desabando em nossas cabeças. Confundiram tombamento com esquecimento sobre esse prédio”, disse.
Restauração
Atualmente, existe um Termo de Cooperação entre a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a restauração da antiga cadeia.
Ao g1, o Iphan informou que acompanha a execução do acordo firmado com o Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
Segundo o instituto, o processo de licitação para a elaboração dos projetos está em andamento e está na fase de análise da capacidade técnica das empresas participantes. A previsão é de que os trabalhos comecem em aproximadamente 30 dias.
O Iphan informou ainda que a recuperação do imóvel deve contribuir para a revitalização do Centro Histórico de Manaus e permitir que a construção volte a ter uma função social a partir de novos usos.
O instituto também afirmou que atua na preservação dos bens tombados por meio de planejamento, análise e autorização de intervenções, fiscalização e elaboração e execução de projetos de restauração e conservação.
Lixo e sensação de insegurança
Enquanto o projeto não sai do papel, o terreno da antiga cadeia continua acumulando lixo. A vegetação cresce junto às paredes e ocupa áreas do imóvel. Em alguns pontos, árvores avançam sobre a fachada da construção. Grades também foram retiradas ou furtadas.
A situação preocupa moradores e pessoas que precisam passar pelas proximidades.
A sensação de insegurança ganhou ainda mais força em julho de 2025, quando o corpo do psicólogo Manoel Guedes Brandão foi encontrado em uma área de mata nos fundos da antiga cadeia. O caso segue sendo investigado pelas autoridades.
Para moradores, a restauração poderia ajudar a devolver movimento e segurança à região.
“Um colégio, quem sabe até uma delegacia, que estamos precisando nessa área”, sugeriu o aposentado Francisco Eulálio.
Fran Muniz também defende que o espaço seja aproveitado.
“Pelo amor de Deus, é um prédio histórico. Transforme em alguma coisa, até hospital”, afirmou.
A expectativa agora é que o projeto de restauração avance e que o prédio centenário deixe de ser um símbolo de abandono para voltar a fazer parte da vida cultural e urbana de Manaus.
Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa
g1 AM