'Cidade Livre': como eram os abrigos dos trabalhadores durante a construção de Brasília

  • 19/04/2026
(Foto: Reprodução)
Casas do Núcleo Bandeirante, em setembro de 1958. (Arquivo Público do DF) Chão de terra batida, acampamentos improvisados e livre comércio. Era assim a estrutura da “Cidade Livre” — conhecida hoje em dia como Núcleo Bandeirante. O local foi uma das primeiras regiões habitadas do Distrito Federal e surgiu em 1956, servindo de apoio para os trabalhadores que participaram da criação da capital. A 15 km do centro de Brasília, a Cidade Livre se desenvolveu dentro das suas próprias limitações. A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (NOVACAP) permitia apenas construções de madeiras, para facilitar o desmonte após a construção de Brasília. Núcleo Bandeirante: conheça histórias de quem faz a história da região A cidade livre, além de um local de moradia para os operários, também era um lazer dos finais de semana. O comércio era variado e as opções de passatempo eram diversas; pousadas, bares, restaurantes, igrejas e cinema. Maria Fernanda Derntl, professora e pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, explica que a cidade livre foi um lugar diverso. "Era um centro vivo e animado, fundamental para abastecer as pessoas envolvidas na construção inicial de Brasília. Vários críticos notaram o contraste entre a Cidade Livre, com seu espaço pulsante e dinâmico; e o plano de Brasília, que muitos consideravam frio e artificial", diz. Candangos na Cidade Livre (Arquivo Público do DF) A promessa de uma "nova capital" e uma "nova vida" no Planalto Central do país atraiu milhares de pessoas dos mais diversos rincões do país. Com isso, a Cidade Livre virou símbolo da chegada desenfreada dos "candangos" nos primeiros anos da nova empreitada. Ainda em 1957, a Novacap proibiu a formação de novas moradias no local — o que não impediu o crescimento do lugar. O primeiro cronista de Brasília, Clemente Luz, descreveu a vida dos candangos naquela época. O trabalho árduo, 18 horas por dia, contrastava com o sonho da futura capital. "Vocês não podem imaginar o entusiasmo que senti, esta noite, quando as vozes, como num mutirão de roça, entoavam as canções regionais. Eram os nortistas, com os baiões ligeiros sentimentais. Eram os mineiros, com as modinhas picantes e sentimentais, também. Como fundo musical poderoso, o ruído dos martelos, das serras, dos motores." "E, quando a madrugada chegou, uma poderosa sirena determinou a suspensão do canto como se fosse o sinal de recolher. Os ruídos desapareceram por completo, durante uma ou duas horas. Depois, outras sirenas deram o toque de alvorada, e novas vozes começaram a surgir. Já não cantavam, pois saíam de corpos descansados, prontos para a jornada de trabalho." Estação Rodoviária do Núcleo Bandeirante, em 1958. (Arquivo Público do DF) O que tornava a Cidade Livre, de fato, 'livre'? O nome “Cidade Livre” não surgiu por acaso: o local era totalmente livre de impostos e tributos, aberto para empreendimentos de suporte, mas com data de validade — só existiria até a inauguração de Brasília. José Gomes, doutor em História Cultural, explica que a isenção de taxas beneficiava o comércio local. "A denominação da localidade se refere, de maneira oficial, à isenção de tributos, taxas e uma fiscalização rigorosa, o que beneficiava o comércio e a rápida implementação de serviços. Era 'livre' sob a perspectiva econômica e administrativa.” Mas a liberdade ia até certo ponto. Por mais que fosse um livre comércio, a precarização se distribuía entre os candangos mais pobres. "Em suas grandes avenidas, os trabalhadores mais pobres continuavam a viver em condições de precariedade, controle e exclusão. A denominação livre era parcial e contraditória: havia liberdade para comercializar e improvisar, mas não para ficar ou pertencer de maneira plena à “cidade do futuro”. Atrações da Cidade Livre Arquivo Público do DF Quando o provisório virou cidade Em 1959, a inauguração de Brasília se aproximava e com ela, a data de validade da cidade livre. Os moradores e empresários locais criaram a Associação Comercial de Brasília (ACB) e reivindicavam a permanência na cidade. A situação só foi regularizada no governo do presidente João Goulart, quando Brasilia já era — ao menos, formalmente — a nova capital do Brasil. E não sem resistência. "Em 1961, o Núcleo Bandeirante foi reconhecido como cidade-satélite. Ao saber da notícia, em carta ao presidente João Goulart de 20 de dezembro de 1961, Lucio Costa buscou apoio para impedir que isso de fato ocorresse. Lucio Costa esperava que aos poucos a população fosse se mudando para essas cidades-satélite", explica Maria Fernanda. "O Núcleo Bandeirante testemunhou momentos importantes da história inicial de Brasília. Em 1958, houve nas suas ruas uma mobilização de pessoas que haviam ocupado uma área nas proximidades para morar e demandavam acesso a lotes de terra para permanecer em Brasília." "Essa mobilização foi intensamente reprimida pelas forças policiais e, para evitar conflitos que pudessem ameaçar o ambiente de construção de Brasília, as autoridades da Novacap negociaram com os manifestantes a transferência deles para uma área mais distante, Taguatinga, então criada como primeira cidade satélite naquele mesmo ano." Núcleo Bandeirante completou 63 anos Núcleo Bandeirante Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios indicam que, atualmente, cerca de 25 mil pessoas moram no Núcleo Bandeirante. O pesquisador José Gomes afirma que o surgimento e a consolidação do Núcleo Bandeirante como uma região administrativa são fruto da luta histórica dos moradores locais. Farmácia na Cidade Livre, em 1958. (Arquivo Público do DF) "A luta de muitos sujeitos para permanecer na Cidade Livre se destaca como um exemplo de resistência e transformação diante das mudanças urbanas em Brasília", diz. "Enquanto muitos núcleos provisórios se tornaram 'irregulares' após a inauguração da cidade, a Cidade chamada de Livre, apesar das dificuldades, resistiu e se estabeleceu como parte integrante do tecido urbano da nova capital." Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

FONTE: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/04/19/cidade-livre-como-eram-os-abrigos-dos-trabalhadores-durante-a-construcao-de-brasilia.ghtml


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