Guerra judicial, gabinete do ódio, disputa apertada e troca de acusações: o que marcou a campanha em PE

  • 03/10/2026
(Foto: Reprodução)
João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) no debate da Globo Brenda Alcântara/TV Globo Em 48 dias de campanha, o 1º turno das eleições 2026 em Pernambuco reuniu recorde de ações judiciais, polêmicas e troca de acusações. No campo das promessas, as propostas foram de creches a hospitais, passando pela abertura de delegacias da mulher 24h e construção de rodovias. Depois de tudo isso, mais de 7,2 milhões de eleitores vão às urnas, no domingo (4), para eleger um dos sete candidatos em disputa. O g1 faz um resumo com os principais momentos de uma campanha marcada pelo acirramento. A governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) e o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) chegam às portas da votação em situação de empate técnico nas pesquisas eleitorais e indefinição sobre a realização ou não de um 2º turno. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Para o cientista político Arthur Leandro, o embate entre dois candidatos favoritos potencializou a eleição, ofuscando as outras cinco candidaturas que não conseguiram passar pela barreira construída em torno deles. “O balanço do 1º turno é de uma campanha altamente competitiva e progressivamente concentrada em João Campos e Raquel Lyra. As pesquisas de setembro mostraram os dois em patamar muito próximo, enquanto as demais candidaturas permaneceram residuais. A disputa foi fortemente marcada pela comparação entre duas experiências administrativas: o governo estadual de Raquel e a gestão municipal de João no Recife. Segurança, obras, políticas sociais, finanças públicas e capacidade de gestão apareceram como critérios recorrentes de avaliação. Ao mesmo tempo, a campanha combinou forte presença territorial, redes sociais, apoio de lideranças nacionais e judicialização intensa da comunicação”, afirma. Na avaliação do professor, há uma “bipolarização competitiva” entre os dois gestores que se enfrentam pelo comando do estado com elevada concentração eleitoral e falta de uma tendência definitiva antes da votação. Agora no g1 "Fura-fila" e "fura-teto" Como em toda eleição, assuntos polêmicos e fragilidades pessoais dos candidatos entraram no discurso político e protagonizaram toda a campanha. No começo do ano, o então prefeito recifense João Campos teve que lidar com uma tentativa de abertura de processo de impeachment na Câmara de Vereadores do Recife por conta da alteração do resultado de um concurso público de procurador do município. No certame, um advogado aprovado nas vagas para pessoas com deficiência (PCD) deixou de ser nomeado e, no lugar dele, foi convocado o filho de uma procuradora do Ministério Público de Contas (MPCO) e de um juiz do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que fez a seleção sem optar pelas vagas afirmativas, mas pediu reinscrição no concurso após receber diagnóstico de autismo dois anos depois da prova. A abertura do processo de impeachment foi barrada pela Câmara de Vereadores, mas o caso, chamado por opositores de Campos como “fura-fila”, gerou embates entre o candidato e Raquel Lyra por toda a eleição. No primeiro debate da eleição estadual, no dia 11 de setembro, a governadora alfinetou o adversário. "Eu nunca furei fila e fiz como prioridade no governo do estado a maior nomeação de concursados da história de um governo”, disse. João Campos negou que tenha existido favorecimento na nomeação do concurso e disse que o caso foi tratado de forma “técnica”. Em reação à oponente, o candidato do PSB acusou Raquel Lyra de ser “fura-teto”, em referência a ela ser procuradora concursada e receber o salário do seu cargo de origem, em vez da remuneração de governadora. O ex-prefeito afirmou que Raquel Lyra recebeu acima do teto constitucional, por causa de "penduricalhos" concedidos à categoria. "Você sabia que a candidata que declarou R$ 1 na sua conta-corrente recebe três vezes mais do que o salário do governador? Que isso tem indícios claros de inconstitucionalidade? Se colocar tudo o que recebeu nesse período, dá mais de R$ 1 milhão de forma inconstitucional”, disse no mesmo debate. Raquel Lyra nega irregularidades com seu salário. Empresa de ônibus e laqueadura Outro incômodo para a governadora surgiu com a denúncia de falta de fiscalização da empresa rodoviária Logo Caruaruense, de propriedade do pai dela, o ex-governador João Lyra Neto (PSD). Segundo um relatório da Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI), a empresa de viagens funcionou sem vistorias nos coletivos por cerca de três anos. A repercussão do caso fez o então presidente da EPTI, Antônio Carlos Reinaux, ser exonerado do cargo e rendeu um pedido de impeachment na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). A governadora negou favorecimento ao grupo da família e destacou que a empresa encerrou suas atividades em 2026. Já na reta final da campanha, um vídeo gravado há mais de um ano ganhou repercussão nacional e causou uma agenda negativa para a candidata do PSD. Em maio de 2025, na inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste do estado, Raquel Lyra sugeriu que fosse feita uma laqueadura numa mulher "sem ela saber". Após a postagem, a candidata à reeleição em Pernambuco pediu desculpas publicamente por meio de uma nota e de um vídeo em sua conta no Instagram. O caso foi amplamente explorado pelo seu principal adversário, João Campos, e até atos de rua foram realizados em protesto. Acusações contra os vices Na troca de acusações entre João Campos e Raquel Lyra, os candidatos a vice também viraram alvo. No último debate da campanha, realizado pela TV Jornal em 1º de outubro, Raquel questionou João com relação a uma investigação da Polícia Federal sobre repasses mensais de R$ 100 mil do dono do extinto Banco Master, Daniel Vorcaro, preso em março deste ano, ao candidato a vice-governador na chapa do ex-prefeito do Recife, Carlos Costa (Republicanos). Em resposta, João disse que a empresa gerida por Carlos trabalha para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) desde 2019, prestando serviços lícitos a diversos bancos. O candidato usou o tempo de resposta para mencionar a auditoria federal do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), que investiga a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, no Agreste, gerida pelo marido da atual vice-governadora, Priscila Krause (PSD). Raquel explicou que a investigação ao hospital foi anulada pelo Ministério da Saúde e que a auditoria não detectou fraudes na unidade de saúde. A Justiça Federal em Pernambuco determinou a suspensão da auditoria. LEIA TAMBÉM: Tradições familiares, viradas e tragédias: eleições em PE são marcadas por disputas históricas Número de candidatos a deputado ligados a igrejas cai 35% em 4 anos em PE; presença de militares aumenta Brega funk domina jingles das campanhas para o governo de PE e divide meio artístico Guerra na Justiça e “gabinete do ódio” Com um 1º turno com "cara de 2º turno", o embate entre os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas ganhou espaço no mundo judicial. Em relação a 2022, a corrida estadual deste ano teve 169% a mais de ações judiciais, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE), num levantamento feito a pedido do g1. O número compara o período de 1º de janeiro a 28 de setembro de 2022 com 1º de janeiro a 28 de setembro de 2026 (veja tabela abaixo). Nº de processos eleitorais em Pernambuco Ao todo, foram 748 processos judiciais, contra 316 do último pleito. A maior parte é resultado de representações entre as candidaturas. Essas representações são processos que os partidos ou candidatos movem em denúncia a algum ato ilícito, geralmente sobre adversários. Para o cientista político Arthur Leandro, contudo, o crescimento do número de processos reflete mudanças no modelo de disputa eleitoral: “A Justiça Eleitoral passou a integrar mais intensamente o repertório estratégico das campanhas, o que é uma tendência crescente da disputa política no Brasil. Disputas sobre propaganda negativa, conteúdos digitais, direito de resposta, IA, perfis falsos e acusações recíprocas foram rapidamente judicializadas; isso não significa que a eleição tenha sido “decidida nos tribunais”, mas que o conflito eleitoral passou a ocorrer simultaneamente nas urnas, nas redes, na mídia e no judiciário”, afirma. A expressão "gabinete do ódio" foi uma das protagonistas do pleito, com os dois candidatos se acusando mutuamente sobre a utilização de uma estrutura de ataques aos adversários, especialmente pelas redes sociais. As duas candidaturas afirmaram ser alvo de "gabinetes do ódio" e de ações coordenadas de "milícias digitais". No fim de agosto, a equipe jurídica da Frente Popular de Pernambuco, coligação de João Campos, entrou com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) junto ao TRE para investigar suspeitas de irregularidades que envolvem abuso de poder político e abuso de poder econômico. Na última terça-feira (30), a coligação Pernambuco de Coração, de Raquel Lyra (PSD), informou que também entrou com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra João Campos (PSB). A campanha da governadora afirmou ter encontrado indícios de que a chapa adversária atuou de forma coordenada com "um núcleo de perfis" para promover ataques contra a gestora nas redes sociais. O texto também levanta suspeitas sobre uso de recursos da prefeitura do Recife para financiar as postagens. O "personagem" central do duelo de narrativas do suposto “gabinete do ódio” foi Amisadai Andrade da Silva, o servidor comissionado que foi exonerado após denúncias de que ele integraria um suposto "gabinete do ódio" a serviço do governo de Pernambuco. Ele foi exonerado um dia após a exibição de uma reportagem da TV Record, em 25 de agosto, denunciando o suposto "gabinete do ódio" que atacaria adversários da governadora, em especial João Campos. Raquel chegou a postar em seu perfil no Instagram que existiria uma amizade entre João Campos e o servidor exonerado, o que foi negado pelo adversário. Amisadai Andrade negou fazer parte de uma estrutura coordenada para atacar adversários políticos da governadora e prestou formalmente queixa por meio de uma notícia-crime na Polícia Federal. Ele afirmou, ainda, que o vídeo em que ele aparece conversando sobre o suposto esquema tem indícios de adulteração. O caso é investigado pela Polícia Federal. Cartazes apócrifos Outro capítulo que mostrou como a campanha eleitoral pernambucana foi dura envolve a suspeita de uso de panfletos apócrifos. No início de setembro, cartazes que acusavam Raquel Lyra de matar o marido para ganhar eleição provocaram um novo abalo na campanha. No material, ela é acusada de, para ser eleita em 2022, ter matado o marido, o empresário Fernando Lucena. Ele sofreu um mal súbito no dia do 1º turno da última eleição estadual. A Justiça Eleitoral proferiu duas decisões determinando a abertura de inquérito pela Polícia Federal (PF) para investigar a origem dos panfletos. A investigação foi pedida inicialmente pela coligação Pernambuco de Coração, de Raquel Lyra. Posteriormente, a Frente Popular de Pernambuco, do também candidato ao governo João Campos (PSB), também acionou a Justiça e pediu a ampliação do inquérito, o que também foi deferido. Creches, hospitais, delegacias, rodovias: as promessas dos candidatos Os grandes temas da disputa pelo governo de Pernambuco em 2026 cercaram a capacidade administrativa e as entregas de obras e ações sociais, especialmente voltadas para as mulheres, que constituem a maior parte do eleitorado. O ponto alto foi o duelo entre Raquel Lyra e João Campos sobre quem construiu mais creches. “Raquel concorreu como governadora em exercício; João, como ex-prefeito do Recife. Isso deslocou boa parte da disputa para questões de competência, desempenho e capacidade de gestão: segurança, obras, serviços públicos, políticas sociais, finanças e resultados concretos”, afirma o cientista político Arthur Leandro. O enfrentamento à violência contra a mulher também ganhou considerável espaço na campanha. A abertura das delegacias da mulher 24h é promessa de campanha recorrente dos candidatos ao governo do estado neste ano e também foi alvo de disputa entre João Campos e Raquel Lyra. João Campos prometeu duplicar delegacias da mulher e criar centros de qualificação profissional, enquanto Raquel Lyra prometeu deixar todas as Delegacias da Mulher funcionando 24 horas e abrir salas especializadas. Os dois candidatos também trocaram acusações em relação à construção de hospitais. João Campos teve como uma das principais propostas da campanha a construção de quatro hospitais, sendo um deles com 900 leitos no Recife, chamado por ele de "maior hospital da história do estado". Já Raquel afirma que já está entregando unidades e que reformou 27 hospitais e pretende reestruturar grandes hospitais e regionalizar atendimento de saúde. Apresentando-se como "diferente dos iguais", em indireta à rivalidade entre João Campos e Raquel Lyra, Ivan Moraes (PSOL) critica as promessas de novas unidades hospitalares e defende maior atenção à saúde preventiva. Ele também é defensor de maior exploração da cannabis medicinal pelo estado. Confira, abaixo, as propostas com maior destaque de cada candidato (em ordem alfabética) Guilherme Fonseca (PSTU): salário mínimo estadual, restaurante universitário na UPE, tarifa zero e plano de obras (saiba mais sobre plano do candidato AQUI). Ivan Moraes (PSOL): Passe Livre na Região Metropolitana do Recife, Projeto Cultura Todo Dia, exploração de cannabis medicinal e câmeras nos uniformes da PM (saiba mais sobre plano do candidato AQUI). João Campos (PSB): construção de quatro hospitais, IPVA Zero para motos com até 180 cilindradas, Não pagar conta de luz sem receber água e Pé de Meia Pernambuco (saiba mais sobre plano do candidato AQUI). Professora Camila (UP): orçamento regional participativo, ampliação da UPE, fim de pedágios e reestatização da Compesa (saiba mais sobre plano do candidata AQUI). Raquel Lyra (PSD): conclusão do Arco Metropolitano, prontuário eletrônico na saúde, Programa Palafita Zero e mais 150 mil vagas no Programa Mães de Pernambuco (saiba mais sobre plano do candidata AQUI). Renan Hallais (Missão): professor em domicílios, programa de desfavelização, ferrovia Petrolina-Salgueiro e ranking de eficiência (saiba mais sobre plano do candidato AQUI). Victor Assis (PCO): passe livre, expropriação de imóveis vagos, comitês de autodefesa e mais verbas para saúde e educação (saiba mais sobre plano do candidato AQUI). Apoio político e a campanha nas ruas Pernambuco terá 12 eleição para governador desde a redemocratização, em 1982 Reprodução/TV Globo Após ser eleita governadora no 2º turno das eleições de 2022 sem declarar voto para presidente, Raquel Lyra repetiu essa estratégia no 1º turno deste ano. Com uma boa relação institucional com o presidente Lula, aliado de João Campos, mas com grande número de bolsonaristas em seu palanque, a governadora não declarou voto durante toda a campanha. “Sou pernambuquista” foi a resposta que a candidata do PSD mais utilizou para responder sobre quem apoia na corrida presidencial. Ela também não declarou apoio ao candidato de seu partido à presidência da República, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). Na contramão, João Campos apostou fortemente na associação com o presidente Lula, que tenta a reeleição. O candidato do PSB reforçou o apoio do aliado nas redes sociais e na propaganda no rádio e na TV, com a expressão "Time do Lula". O candidato Ivan Moraes (PSOL) também apoia a candidatura de Lula. Professor Camila (UP) fez campanha para a correligionária Samara Martins (UP) para presidente. Também apoiaram os candidatos de seus partidos: Renan Hallais (Missão), que pediu votos para Renan Santos (Missão); Guilherme Fonseca (PSTU) para Hertz Dias (PSTU) e Victor Assis (PCO) para Rui Costa Pimenta (PCO). Em quase 50 dias de campanha, os candidatos ao governo de Pernambuco fizeram atos em todas as regiões do estado. De acordo com dados fornecidos pelas campanhas, a pedido do g1, quem mais visitou cidades após o início da corrida eleitoral, em 16 de agosto, foi João Campos, seguido por Renan Hallais e Raquel Lyra (confira abaixo). Todas as quatro grandes regiões do estado foram visitadas pelos candidatos, com maior número de agendas no Grande Recife. Os atos de campanha reuniram caminhadas, carreatas, encontros com lideranças, panfletagens e debates. Quantidade de cidades pernambucanas visitadas por cada candidato na campanha: João Campos - 66 Renan Hallais - 52 Raquel Lyra - 46 Professora Camila - 33 Ivan Moraes - 17 Guilherme Fonseca - 10 Victor Assis - não respondeu até a última atualização dessa reportagem Após 2022 ter um 1º turno pulverizado entre cinco candidaturas separadas por menos de seis pontos percentuais, 2026 retomou a tradição pernambucana que disputa concentrada em dois grandes polos. O cientista político Arthur Leandro acredita que a polarização vista nessa campanha foi além de um embate de ideologias distintas. Para ele, as narrativas sobre modelos de dominar foram o centro da disputa. “Mais do que um único tema substantivo, o primeiro turno pode ser lembrado como uma disputa sobre quem administrou melhor, quem representa maior capacidade de governo e quais narrativas sobre essas trajetórias conseguiram prevalecer”, afirmou. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/eleicoes/2026/noticia/2026/10/03/guerra-judicial-gabinete-do-odio-disputa-apertada-e-troca-de-acusacoes-o-que-marcou-a-campanha-em-pe.ghtml


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